SE DEUS NÃO EXISTE, TUDO É PERMITIDO?


Em texto publicado na Folha de São Paulo de 23/12/2006, intitulado "O mundo estilhaçado e a morte libertadora", Luiz Felipé Pondé dá resposta positiva à pergunta acima formulada, que serve de título a este pequeno texto. Para ele, se admitirmos a premissa de que Deus não existe, estaremos livres “da única forma verdadeira de responsabilidade, a infinita. A moral é mera convenção e não está escrita na poeira das estrelas.”
Com todo o respeito, não consigo concordar com essa afirmação. Sem entrar aqui na discussão do que seria uma “verdadeira” responsabilidade, e sem questionar a natureza “meramente convencional” da moral, parece-me que a responsabilidade é intrínseca ao próprio homem. Não está mesmo escrita na poeira das estrelas, mas tampouco se acha em qualquer outro ponto exterior à nossa própria consciência.
Não discuto, aqui, a premissa (a existência de Deus). Questiono apenas as conseqüências que podem ser extraídas dela, especialmente da eventual resposta negativa à existência de um criador consciente e racional. Parece-me inaceitável a afirmação de que, se admitirmos a premissa de que Deus não existe, moralmente tudo será possível.
O contrário, na verdade, é o que me parece ocorrer.
Se Deus não existe, nosso planeta não é a deliberada e consciente criação de um ser inteligente (que poderia construir, destruir e reconstruir tudo, quando e como quisesse). É, na verdade, fruto do acaso de algumas colisões cósmicas; a vida é o aleatório produto de bilhões de anos de reações químicas; a vida inteligente, então, decorre de ainda mais alguns bilhões de anos de seleção natural, na qual o componente aleatório tem papel decisivo. O planeta terra, todo e qualquer ser vivo em geral, e o ser humano em particular, inteligente, consciente de si, são, nesse contexto, raríssimos, de preciosidade indescritível e inigualável, e merecem, por essa razão, todo o cuidado possível.
Da mesma forma, se Deus não existe, nossa maldade ou nossa bondade, e nossos atos para com nosso planeta, para com os seres que nele habitam e para com nossos semelhantes, não podem ser atribuídos a um criador que “nos fez assim”, mas à consciência que temos de nós mesmos, de nosso valor e de nossa unicidade. A inexistência de Deus, em vez de colocar-nos como “animais ferozes que babam enquanto vagam pelo deserto e contemplam a solidão dos elementos”, como sugere o autor do texto em exame, coloca-nos como únicos responsáveis pelo destino de uma raríssima obra da natureza. Se dependemos somente de nós mesmos, e de nenhuma força superior e consciente, isso é um motivo adicional para que nos ajudemos, nos compreendamos e para que sejamos solidários uns com os outros.
Como o autor citado fez referência à poeira das estrelas, não é possível que desconheça a obra de Carl Sagan, homem que, de resto, é o exemplo do que estamos a dizer. Talvez não tenha existido alguém tão ateu, e, ao mesmo tempo, tão ético, e preocupado com os destinos do homem, dos seres vivos e do planeta Terra, preocupação esta que certamente não se devia a uma “mera convenção”. E, paradoxalmente, certos governantes de grandes potências, conquanto bastante religiosos, preocupados portanto com a “verdadeira responsabilidade, a infinita”, pouco ligam para os destinos do planeta em longo prazo, ou mesmo para a vida dos que estão além de suas fronteiras, sendo-lhes mais caros o crescimento econômico e a disponibilidade de poços de petróleo.



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